1 de dezembro de 2007

Prefácio de Advento

Já começou o Natal.
As ruas e as montras estão decoradas, os catálogos de compras multiplicam-se, fazem-se listas, planos, combinações. Acima de tudo, aumentam a azáfama e as compras. A bablbúrdia é grande, mas todos, até os mais empedernidos, vivem a necessidade de se sentirem bem-dispostos e serem simpáticos para os outros. Começou o Natal.
Cheira-se no ar aquele ambiente estranho, surpreendentemente confortável e doce. Este ano é outra vez Natal. Vêm à memória momentos da infãncia. Reaparecem símbolos inusitados e anacrónicos: sinos, azevinho, trenós, bonecos de neve, estrelas, estábulos. Ninguém sabe exactamente o que querem dizer e soam a estranho na nossa sociedade electrónica. Mas é issso que constitui o espírito de Natal. A actividade económica e problemática sócio-política têm de se preparar de novo. Começou o Natal.
No meio de tanta confusão, passa um burrinho com uma Senhora grávida em cima e o marido ao lado. Vão silenciosos, como que perdidos na labuta da grande cidade. Pedem guarida, apenas suplicam um lugar para pernoitar. Afinal, o bebé está quase a nascer. Poderiam dispensar uma hospedagem só por uma noite, esta noite de Natal?
Naturalmente, hoje como em todos os anos dos últimos mil, poucos lhes ligam. Já começou o Natal e estamos demasiado ocupados em todas as preparações para lhes dar atenção. Não há lugar para eles nesta nossa intensa actividade. Temos de decorar ruas e montras, ler os catálogos de compras, fazer listas, planos, combinações. Não é por mal, ou por grosseria que não lhes ligamos. Afinal, é Natal, a época menos adequada para estes estranhos nos virem perturbar.
Mas hoje, como em todos os anos dos últimos dois mil, o Menino insiste em nascer. Perante o nosso alheamento e indiferença, Ele teima em nascer. Escolhe o momento mais incómodo, a altura mais perturbada, o instante mais atarefado. Escolhe o Natal.
A actividade económica e a problemática sócio-política, mesmo que mergulhadas no espírito natalício, não têm lugar para Eles. As nossas tarefas familiares e ocupações profissionais não permitem que Lhe liguemos. Mas Ele insiste sempre em nascer. Nem que seja num estábulo. Num estábulo vazio e frio, o único sítio da cidade que tem lugar para Ele.
Era suposto o estábulo estar vazio. Há tanto a fazer no Natal, há tanta actividade na cidade, que ninguém tem tempo para ir ao estábulo vazio e frio. Só por isso é que há ali lugar para Ele. Só por isso é que o Menino conseguiu nascer. Mas depois, surpreendentemente, aquele estábulo fica cheio de gente.
Os pastores e os magos visitam o Menino. Eles sabiam que o Menino viria. Eles tinham começado o Advento, depois da festa do Cristo-Rei. Tinham iniciado o ano litúrgico e seguido as várias semanas de preparação para a chegada do Menino. Foram à missa, rezaram o Terço, confessaram-se, acompanharam a liturgia festiva desta época incomparável do ciclo anual. Desta forma é que conseguiam ouvir a mensagem do Anjo e seguir a estrela até o Presépio. Desta forma é que foram ouvindo "Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens por Ele amados" (Lc 2, 14).
Claro que os pastores e os magos também estão muito atarefados na azáfama geral. Afinal, já começou o Natal e há muito a fazer. Também eles aumentam o bulício e as compras. Mas fazem-no acompanhando a viagem do burrinho com a Senhora grávida e o marido do lado. Fazem-no para festejar o nascimento do Menino. Fazem-no para nascer de novo, com o Menino. E só assim é que é possível a presença do Menino nas festas de Natal deste ano. Só através de todos os que se ocuparam intensamente nessas festas, mas a pensar no Menino. Por causa do Menino.
Aliás, são os pastores e os magos que, mais do que ninguém, cheiram no ar aquele ambiente estranho, surpreendentemente confortável e doce. São eles que revivem na memória momentos da infãncia, da juventude, da velhice. Momentos em que foi, mais uma vez, Natal. São eles que, no meio da azáfama, entendem os símbolos, os sinos, o azevinho, os trenós, os bonecos de neve, a Estrela, o Estábulo. São eles os únicos que sabem exactamente o que querem dizer os símbolos e como eles se enquadram estranhamente em todos os séculos. Até na nossa sociedade electrónica. São eles que vivem o verdadeiro espírito de Natal.
Aquele espírito que todos sentem, mesmo no meio da azáfama. Porque todos vivem o espírito de Natal, aquela necessidade estranha de se sentir bem-disposto e ser simpático para os outros. Mas o único espírito de Natal que existe vem daqui. Aquele espírito que todos, até os mais empedernidos, sentem vem daqui. Não há outra fonte do espírito de Natal senão o nascimento do Menino. E este espírito só se pode entender seguindo o Advento, as várias semanas de preparação, indo à Missa, rezando o Terço, confessando-se, acompanhando a liturgia festiva desta época incomparável do ciclo anual. Todos, mesmo os mais empedernidos, é daqui, mesmo sem o saberem, que recebem o espírito único, aquele ambiente estranho, surpreendentemente confortável e doce.
Este ano, vai nascer um Menino. Este ano, apesar da nossa azáfama, conscientes ou inconscientes, vai nascer o Menino. Quem O traz, em cima do burrinho e ao lado do marido, é a Senhora. E a senhora chama-se Igreja. Já Começou o Natal!
"Autos de Natal"
João César das Neves
Lucerna
Imagens da paróquia de Nª Srª da Ajuda, Lisboa

2 comentários:

Anónimo disse...

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Ser Ajuda disse...

INFORMAÇÃO!

VIGÍLIA POR DARFUR EM LISBOA

No próximo dia 8 de Dezembro vai ter lugar, na praça entre a Gare do Oriente e o Centro Vasco da Gama, uma Vigília por Darfur a ter início pelas 19h00.


Sendo uma iniciativa conjunta da Amnistia Internacional, Africa-Europe Faith and Justice Network, Cáritas Portuguesa, Comissão Justiça e Paz dos Religiosos, Fundação Gonçalo da Silveira, Missionários Combonianos e TESE a Vigilia visa apelar aos lideres de governo presentes em Lisboa para que encontrem uma rápida resolução sobre este assunto.

A região Sudanesa do Darfur tem a dimensão do território Françês e conta com três milhões e meio de homens, mulheres e crianças carecem de ajuda humanitária, dois milhões e meio ficaram sem casa e 400 mil morreram desde 2003. Mais de 2 milhões de refugiados, na sua maioria crianças, necessitam de auxílio urgente para minimizar o impacto da imensa trágica que se vive actualmente em Darfur e que já vitimou quase meio milhão de pessoas. As Nações Unidas classificam o Darfur como a maior crise humanitária do século. Apesar do Conselho de Segurança das Nações Unidas ter já autorizado o destacamento das forças de manutenção de paz para o Darfur, as tropas ainda não estão no terreno.

Mais informações:

www.pordarfur.org

965431907

Grupo sócio-caritativo sedeado em Lisboa e formado a 27 de Fevereiro de 2005 - "Não se trata apenas da mística da caridade, mas de a concretizar"(Francisco dos Santos, 2009) >> Segue todas as nossas actividades aqui e no Facebook!>> Madrid 2011, o momento do ano está a chegar... de 15 a 22 de Agosto de 2011

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