13 de junho de 2007

O Pianista

Fotografia tirada na Escola Secundária Rainha D. Amélia
Lisboa-2007
Vou a andar, distraído, por um centro comercial, acompanhado de uma amiga violinista. Úrsula, nascida na Hungria, é actualmente uma figura de destaque em duas filarmónicas internacionais. De repente, ela pega no meu braço:
- Ouça!
Ouço. Escuto vozes de adultos, gritos de crianças, ruídos de televisões ligadas em lojas de electrodomésticos, saltos de sapatos a bater contra o chão de ladrilhos, e aquela famosa música, omnipresente em todos os centros comerciais do mundo.
- Então, não é maravilhoso?
Respondo que não escutei nada de maravilhoso ou fora do normal.
- O piano! - diz ela, olhando-me decepcionada. - O pianista é maravilhoso!
- Deve ser uma gravação.
- Não digas disparates.
Ouvindo com mais atenção, é óbvio que aquela música é ao vivo. Está a tocar uma sonata de Chopin naquele momento e, agora que me consigo concentrar, as notas parecem ocultar por completo o barulho que nos cerca. Andamos pelos corredores cheios de gente, de lojas, de ofertas, de coisas que, segundo anunciam toda a gente tem - menos eu ou você. Chegamos à praça da restauração: pessoas a comer, a conversar, a discutir, a ler jornais, e uma dessas atracções que todos os centros comerciais procuram dar aos seus clientes.
Neste caso, um piano e um pianista.
Toca mais duas sonatas de Chopin, e logo a seguir Shubert, Mozart. Deve ter cerca de 30 ano; uma placa colocada ao lado do pequeno palco explica que é um famoso músico da Geórgia, uma das ex-repúblicas soviéticas. DEve ter procurado trabalho, as portas fecharam-se, desesperou-se, resignou-se, e agora está ali.
Mas não tenho a certeza se está mesmo ali: os seus olhos fitam o mundo mágico onde estas músicas foram compostas, as suas mãos partilham com todos o amor, a alma, o entusiasmo, o melhor de si próprio, os seus anos de estudo, de concentração, de disciplina.
A única coisa que parece não ter percebido é que ninguém, absolutamente ninguém, foi ali para o ouvir, mas foram comprar, comer, distrair-se, ver montras, encontrar amigos. Um prossegue a marcha. O pianista não viu isto - ainda está a conversar com os anjos de Mozart. Tão-pouco viu que existe uma plateia de 2 pessoas, uma das quais, uma talentosa violinista, escuta-o com lágrimas nos olhos.
Lembro-me de uma capela onde entrei uma vez por acaso e vi uma rapariga a tocar para Deus; mas estava numa capela, aquilo fazia sentido. Neste caso, ningué, está a ouvir, possivelmente nem sequer Deus.
Mentira. Deus está a ouvir. Deus está na alma e nas mãos deste homem, porque ele está a dar o melhor de si próprio, independentemente de qualquer reconhecimento, ou do dinheiro que recebeu. Toca como se estivesse no Sclara de Milão ou na Opéra de Paris. Toca porque esse é o seu destino, a sua alegria, a sua razão de viver.
Sou tomado por uma sensação de profunda reverência. Respeito por um homem que naquele momento está a relembrar-me de uma lição importantíssima: tu tens uma lenda pessoal para cumprir, e ponto final. Não importa se os outros apoiam, criticam, ignoram, toleram - tu estás a fazer isso porque é o teu destino na terra, és a fonte de qualquer alegria.
O pianista acaba outra peça de Mozart, e pela primeira vez nota a nossa presença. Cumprimenta-nos com um educado e discreto aceno de cabeça, fazemos o mesmo. Mas de imediato regressa ao seu paraíso, e é melhor deixá-lo ali, sem ser tocado por nada neste mundo, nem sequer pelos nossos mais tímidos aplausos. Está a servir de exemplo para todos nós. Quando acharmos que ninguém presta atenção ao que fazemos, pensemos neste pianista: ele estava a conversar com Deus através do seu trabalho, e o resto...não tinha qualquer importãncia.
"Ser como o rio que flui"
Paulo Coelho
Obrigado pela presença de todas as inúmeras pessoas que nos acompanharam na Via Lucis!

2 comentários:

Anónimo disse...

"tu tens uma lenda pessoal para cumprir, e ponto final. Não importa se os outros apoiam, criticam, ignoram, toleram - tu estás a fazer isso porque é o teu destino na terra, és a fonte de qualquer alegria."

esta tudo dito...

**

Anónimo disse...

não tem qualquer importãncia mesmo...
beijinhos

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