27 de maio de 2007

O Monólogo do Velho da Horta - Reflexão de Pentecostes

Antes de ler a seguinte reflexão, tome as devidas precauções:

Não leia caso não queira mudar o rumo da sua vida!

.Entra um velho, o velho da horta, e diz:
.
«- De onde é que me veio esta ideia de que a minha vida é minha? O que me fez pensar que este corpo, que o meu destino, que a minha sorte são meus? Eu actuo diariamente como se fosse dono de mim, como se mandasse nos meus membros, como se isso fosse a minha responsabilidade, o meu destino, a minha preocupação, a minha dificuldade. Mas de onde me veio essa ideia?
Se eu olhar com atenção e objectividade, tudo o que sei aponta noutro sentido. Nasci sem dar por isso. Não fiz nada para nascer assim, nascer aqui, nascer neste tempo. Um dia acordei e notei que existia, mas não fizera nada para isso. Se me disserem que a minha vida me foi entregue, isso encaixa muito melhor nos factos que eu sei do que dizer que a vida é minha.
Não fiz nada para ser altou ou baixo, louro ou moreno, bonito ou feio, esperto ou estúpido. Sou o que sou não por minha obra, mas por ser o que sou. E os meus pais, que me fizeram, também não são capazes de me explicar como me fizeram, porque nasci e porque sou assim. Eles sabem que me fizeram, mas não sabem como, nem sabem fazer outro igual a mim.

Além disso, eu nem sequer controlo a minha vida depois de a ter. Eu sei que a vida me vai ser tirada um dia, sem eu poder fazer nada quanto a isso. 'E quem de vós, pelos factos' de inquietar, pode acrescentar um côvado à extensão da sua vida? Se nem as mínimas coisas podeis fazer, porque vos preocupais com as restantes?' (Lc 12, 25-26)
E todos os dias, no meio da minha labuta, sou continuamente lembrado de que controlo muito pouco do que me acontece. Sinto que domino o andamento da minha vida, mas sinto também que só domino uma pequeníssima parte da minha vida. Sou o resultado da minha educação, de influências de amigos, do ambiente, de múltiplos acasos que tiveram efeitos decisivos. Além disso, a minha vida está mergulhada num mar de influências, de efeitos laterais, de conseguências inesperadas.
Se quiser ser rigoroso, tenho de dizer que esta vida, que indiscutivelmente me está confianda, é tudo menos minha. A melhor maneira de a descrever é dizer que é como quando me emprestaram uma casa. Às vezes acontece que um amigo empresta a outro uma casa e a sua horta. E este vive na casa que não construiu, não comprou, nem mobilou, que não conhece e que não controla. Come da horta que não escolheu, que não plantou, que não cuidou. E que, quando o amigo voltar, vai ter de devolver em bom estado.
Isto não quer dizer que não tenhamos responsabilidade. Eu sinto bem que produzo efeitos na minha vida, tal como a minha conduta afecta a casa que me foi emprestada.

Assim, se quisermos ser honestos, percebemos que aquilo que o Senhor Jesus nos diz sobre a nossa vida é o que faz mais sentido.
Quando aparece alguém que nos diz; 'Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeç estão todos contados!' (Mt 10, 30), Ele comporta-Se como o dono da casa. É o dono da casa que conta o que é seu, que não o quer perder. Aliás, o Senhor Jesus Cristo passou a vida a fazer comparações deste tipo.
'Um homem, ao partir para fora, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu 5 talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu...Passado muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e pediu-lhes contas' (Mt 25, 14-15 e 19). Ele é o enhor dos servosa acertar contas do que nos deu. Nós somos os servos.
'Um chefe de família plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar, contruiu uma torre, arrendou-a a uns vinhateiros e ausentou-se para longe. Quando chegou a época das vindimas, enviou os seus servos aos vinhateiros, para receberem os frutos que lhe pertenciam.' (Mt 21, 33-34). Ele é o chefe da família e o dono da vinha. Nós somos os vinhateiros, somos a vinha.
"Saiu o semeador para semear a sua semente". (Lc 8, 5). Ele é o semeador. Nós somos a semente, ou a terra que recebe a semente.
"Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: 'Pai dá-me parte dos bens que me corresponde'. E o pai repartiu os bens entre os dois." (Lc 15, 11-12). Ele é o pai. Nós somos os filhos.
Nós podemos duvidar que Ele seja quem diz ser. Não temos a certeza se Ele é quem confirma. Não sabemos se Ele é dono da casa, o chefe de família e dono da vinha, o semeador, o pai. Não sabemos nem temos maneira de saber. Agora o que não há dúvida é de que nós somos exactamente como Ele diz que somos. Não há dúvida de que a nossa vida é assim. É como a dos servos que receberam talentos, dos vinhateiros em vinha alugada, terra semeada por outros, filhos que recebem a herança. A única coisa que podemos observar, a nossa vida, confirma o que Cristo disse.
O facto de sermos vinhateiros em vinha alugada, hortelãos em horta alheia, terra semeada por outros, não quer dizer que não tenhamos responsabilidade. Nós temos de pôr os talentos a render; mas os talentos, não os fizemos nós. Nós temos de tratar da horta; mas a horta não é nossa.. Nós temos de fazer germinar a semente; mas a semente caiu aqui. Nós temos de utilizar a herança; mas outro no-la deu.
Há uma parábola que diz isto de forma ainda mais clara.
"Quem será, pois, o administrador fiel e prudente a quem o senhor pôs à frente so seu pessoal para lhe dar, a seu tempo, a ração de trigo? Feliz o servo a quem o senhor, quando vier, encontrar servindo assim. Em verdade vos digo que o porá à frente de todos os seus bens. Mas, se aquele administrador disser consigo o mesmo: 'O meu senhor tarda em vir' e começar a espancar servos e servas, a comer, a beber, a embriagar-se, o senhor daquele servo chegará no dia em que ele menos espera e a uma hora que ele não sabe; então, pô-lo-á de parte, fazendo-o partilhar da sorte dos infiéis. O servo que, conhecendo a vontade do seu senhor, não se preparou e não agiu conforme os seus desejos, será castigado com açoites. Aquele, porém, que, sem a conhecer, fez coisas dignas de açoites, apenas receberá alguns. A quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confinado, muito será pedido." (Lc 12, 42-48)
Nós vemos bem que isto tem de ser verdade. Nós vemos todos os dias pessoas que vivem a vida como a administração de uma propriedade preciosa, e lidam com os outros de forma leal, cuidadosa e respeituosa. Mas vemos outros que se põem a "espancar e servos e servas, a comer, a beber e a embriagar-se". E sabemos que os que "conhecendo a verdade do senhor" fazem o mal levam mais açoites que os que "sem a conhecerem, fazem coisas dignas de açoites."
Cristo é o único homem da História que Se comporta como se fosse o dono da vida. E o que Ele diz corresponde ao que eu vejo na minha vida. Eu não sei de onde vim, mas sei que não sou dono disto. A minha vida foi-me emprestada. Cristo é a única pessoa que me diz isto.
A sociedade moderna diz que eu sou dono da minha vida, o que é evidentemente falso. O budismo diz que a vida é só dor e sofrimentos, o que também é evidentemente falso. As mitologias, o hinduísmo, o xintoísmo dizem-me que eu posso comprar a vida com alguns cultos aos poderes do universo, o que é evidentemente falso. O islamismo e o judaísmo dizem-me que alguns homens (Moisés, Moamé) falaram com Deis, o senhor da vida, que lhes disse o que deveríamos fazer, o que até pode ser verdadeiro.
Mas só Cristo diz coisas como: "Quem quiser salvas a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la. Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? Ou que poderá dar o homem em troca da sua vida?"(Mt 16, 25-26)
Nós passamos a vida a falar de nós. No entanto, nós não somos o assunto. O único assunto da nossa vida é Ele, é Cristo. Viver cada momento da nossa vida com os olhos postos no Céu é a única coisa que faz sentido.
Cristo veio dizer-nos que nós não somos daqui. Nós somos do Céu e caímos aqui. Nós somos do Céu. Ou, se preferirem, da Igreja, que é o corpo de Cristo. A Igreja aqui na Terra, a "Igreja militante", é já o início do Céu, da "Igreja triunfante". Estamos já a viver o início do Céu. A única razão por que estamos aqui é porque o Senhor precisa de nós. Quer precisar de nós na Igreja. Quer precisar de nós para trazermos o Céu para aqui.

Somos do Céu mas estamos aqui em "comissão de serviço". A nossa missão é trazer o Céu, uma parte do Céu, um bocadinho do Céu a este mundo. Fazer tudo aquilo que faz de nós pessoal salvas. A nossa missão é tornar já aqui presente o Céu, o Céu de onde somos. "Estou crucificado com Cristo. Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim" (Gl 2, 19-20).
A minha missão é fazer o Céu aqui mesmo.
Nesta horta. »

"Autos de Natal"
João César das Neves
Lucerna

Lembrar:

-No próximo dia 2 de Junho às 21:30h (e visto que já hoje é dia de Pentecostes) o grupo Ser Ajuda irá realizar a sua habitual Festa de Pentecostes. Depois da "Via Lucis I" e "Festa do Fogo", o grupo irá realizar a sua segunda Via da Luz. Aliás, acompanhámos Jesus no seu sofrimento (Via Sacra)...porque não apoiá-lo no seu triunfo?
Esta actividade do grupo vai ser muito especial, já que vai ser a última actividade a marcar um ciclo do grupo, a nível de actividades. O grupo mudou, a estrutura do grupo mudou, e as actividades e o caminho da missão têm que se auto-recriar cada vez mais para mantermos a chama do grupo acesa!

- O grupo foi convidado a ir ver o fabuloso Requiem de Mozart, na Igreja de S. João de Brito em Lisboa, dia 22 de Junho pelas 21:30h...Acompanhe-nos!

-Recebemos também um convite para ir ver o musical/espectáculo "Jesus Cristo Superstar" de Filipe La Féria que foi apresentado no Teatro Rivoli, no Porto...esperamos, neste Pentecostes, ardentemente para que a produção chegue a Lisboa!

- Para além disso, o grupo tem recebido vários convites de todo o país para actividades...Uma delas foi o festival "Louvai ao Senhor", O Festival Musical Online! O grupo não foi a tempo de participar, mas convida a todos os interessados que votem nas suas músicas preferidas, a partir do dia 27 de Maio!

2 comentários:

Anónimo disse...

SA:
Costumo vir ver o vosso blog, mas raramente leio os textos maiores, mas este monólogo, devido à sinalização, despertou-me para a leitura...e para a vida.
Já estive a ouvir as músicas do festival e tenho a minha preferida. Estou mortinha para votar!
É bom mudarem de actividades, e o facto de se habituarem ao que têm só mostra maturidade, força de recriação e muita fé. Acabar é que não!
cumprimentos

Anónimo disse...

A Película Negra está FANTABULÁSTICA! É raro humanizarem os grupos paroquiais, e vcs conseguem-no como ninguém!
Estes são os verdadeiros momentos de grupo...
Muitos parabéns pela coragem, e espero mais momentos divertidos de um grupo sem dúvida especial!

Grupo sócio-caritativo sedeado em Lisboa e formado a 27 de Fevereiro de 2005 - "Não se trata apenas da mística da caridade, mas de a concretizar"(Francisco dos Santos, 2009) >> Segue todas as nossas actividades aqui e no Facebook!>> Madrid 2011, o momento do ano está a chegar... de 15 a 22 de Agosto de 2011

Comunicação Social

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