"Sorrir" - O Convívio Fraterno
Nos dias seguintes não encontrei a Ana. Para ser sincero evitei-a mesmo. De repente a atracção que sentia por ela transformou-se em algo diferente, num sentimento estranho, do qual me preferia afastar. Deixei então o tempo correr. Os dias foram passando e a minha ida à missa já estava esquecida. Voltei à minha rotina habitual. Estava na biblioteca da escola a passear-me pela Internet, quando a Ana se sentou ao meu lado. Estava sorridente como sempre e no seu pescoço continuava a habitual cruz.
- Olá. – De repente o seu sorriso voltou a cativar-me. Já me tinha esquecido como era bonito.
- Olá. – Respondi-lhe, retribuindo o sorriso.
- Então, no outro dia gostaste da missa? Eu bem te vi lá atrás…
- Bem… De facto fui. – Não tinha como negar. Resolvi ser honesto e disse-lhe. – Aquela missa foi diferente, não contava com aquele tipo de música. Mas não leves a mal, não me identifico com o que foi lá dito. Não faz sentido para mim, andar por aí a louvar a Deus.
- Isso é porque não compreendes. Ser filho de Deus é sentir uma liberdade enorme e ser livre é ser feliz. Mas não te preocupes, não te vou impingir nada. – Pensei que fosse ficar chateada com a minha resposta, mas não. Continuou a sorrir. Vi então uma oportunidade de me aproximar dela.
- Livre, dizes tu… - Olhei-a com ar provocador.
- Sim, livre… - Respondeu-me continuando a sorrir.
- Nesse caso, sábado à noite podes vir até ao bar? – Convidei-a.
- Este sábado não posso, pois vai haver encerramento de um Convívio Fraterno.
- Convívio Fraterno!? Que é isso!? - Perguntei
- É uma espécie de encontro, de 3 dias, onde ficamos a saber mais de Deus. É uma experiência muito intensa para os participantes. No final do encontro existe um encerramento, onde estão presentes, família, amigos, comunidade em geral… É muito giro.
- Ou seja, mais uma coisa de Igreja…
- Não critiques aquilo que não conheces, fazemos o seguinte: Se tu apareceres no auditório no sábado à noite, no outro sábado à noite eu vou ter contigo ao bar. Pode ser? – Mais o convite tipo missa, mas desta vez era no auditório e em compensação ela saia comigo. Resolvi aceitar.
- Ok, fica combinado, eu vou então, mas se for uma seca aviso já que me venho embora.
- Óptimo, vais ver que vais gostar. E se não gostares ninguém te proíbe de ir embora. – Da última vez que ela disse isto não gostei nada…
- Sim, mas tu manténs a tua parte do acordo, aconteça o que acontecer…
- Claro, desde que faças um esforço por perceber. – O sorriso dela encantava-me, por isso ia esforçar-me por estar lá algum tempo, pelo menos.
- Então vieste! Que bom. – Disse, como sempre sorrindo.
- Sim, não ia faltar ao prometido. Mas já sabes, se for seca vou embora.
- Não vai ser. Tenho de ir ajudar, depois falamos. – Ela foi para o pé dos amigos, pareciam todos empolgados. Os meus colegas deram-me algum gozo: “A dar em cima da menina de coro”. Disse-lhes para não me chatearem. Nesse momento ouve um grande alvoroço e um grande grupo de pessoas entrou, todos de mãos dadas e a cantar. Eram mais de 50 todos jovens e foram-se sentar no palco. Alguns grupos de jovens na assistência batiam palmas e cantavam também. As famílias apontavam para os seus que estavam no palco. Com eles estavam 6 pessoas com violas que iam tocando e cantando. Não percebia muito bem o que se passava, mas todos estavam animados. Finalmente pararam de cantar. Subiu então um homem ao palco, que deu uma explicação simples sobre o que se passava. Durante 3 dias, aquele grupo de pessoas esteve numa casa, isolados do mundo, onde partilharam experiências e foram descobrindo Deus. Fiquei a saber que mais convívios estavam a ocorrer por várias partes do país. A explicação já começava a tornar-se chata, quando disse que todos os convivas (nome dado aqueles que participaram no encontro), iriam partilhar com a audiência a experiência vivida. Perguntou quem queria ser o primeiro. – Eu! - Uma voz decidida falou. Era um rapaz. Um grupo na audiência chamava pelo seu nome.
- Então, diz-me lá o que tens a dizer sobre este teu Convívio? – Perguntou-lhe o homem.
- Só quero dizer que estou muito feliz por ter aceitado este convite. A partir de agora a minha vida vai mudar, porque me apercebi que Deus, não é apenas uma palavra nem uma invenção do homem. Deus está presente em toda a minha vida. Quero aqui, publicamente, agradecer aos meus pais tudo que fizeram por mim, todo o amor que me dão. Muitas vezes discutíamos por eu não compreender o amor que me dão. Mas agora quero dizer que vos amo.
Nesse momento o rapaz emocionou-se e já não conseguiu falar mais. Os seus colegas voltaram a gritar por ele. Os pais estavam relativamente perto de mim, reparei que também eles estavam emocionados pelo testemunho do filho. Achei aquilo insano. Naquele momento pensei que o rapaz estivesse drogado. Nunca me passaria pela cabeça dizer aos meus pais que os amo, principalmente à frente de tanta gente. Além disso os meus pais eram distantes, discutiam algumas vezes. Eu simplesmente afastava-me… Mais testemunhos vieram então. Todos tinham estes pontos em comum: Agradeciam a Deus e à família. Aquela animação continuou, entre músicas e testemunhos. Apesar de tudo estava a achar interessante aquela loucura. Quando todos deram o seu testemunho, o padre responsável veio falar e disse que não podiam acabar, sem celebrar a Eucaristia, apesar do tardio da hora. Só nessa altura me lembrei de olhar para o relógio. Para minha surpresa já passava da meia-noite. Já me estava a levantar para ir embora, quando a Ana veio ter comigo, sentando-se à minha beira.
- Então! Afinal ainda cá estás! Estás a gostar? – Perguntou-me.
- Isto é tudo muito estranho, mas até estou. – Respondi.
Enquanto falávamos começou a missa. Como a Ana estava sentada ao meu lado, resolvi ficar. O ambiente naquela missa era muito mais descontraído, não estávamos numa igreja, todos cantavam com alegria e no momento das leituras todos ouviam atentos. Quando o padre fez a homilía, reparei no seu tom de voz forte e decidido. Quase que não precisava de micro. Falava de forma áspera, mas com uma expressão alegre no rosto. Embora sem perceber do que falava, admirei aquele homem. Uma frase do que disse, com o seu tom de voz forte, ficou-me gravada na memória: “Alegrai-vos e Exaltai-vos, pois Deus nos chamou a ser seus filhos”. Na altura de comungar a Ana levantou-se, parecia concentrada, eu resolvi segui-la e comungar também. Os meus colegas também acabaram por ir. Quando tudo aquilo terminou, já passava da uma e meia. A Ana parecia contente, mas tinha-me feito uma promessa e tinha de a cumprir.
- Agora vais ter de cumprir o que prometeste. – Disse-lhe.
- Sim, o prometido é devido. No próximo sábado à noite podes contar comigo. – Não hesitou em concordar, sempre a sorrir como é seu hábito.
"Sorrir" - O Início
Escrevi este conto baseado em grande parte na vivência do meu grupo de jovens, mas também em várias pessoas que conheci nos vários encontros em que participei. Para criar as personagens não me baseei em alguém real, mas fui buscar características que existem em muitos jovens cristãos, pelo que estas podiam existir com facilidade. Por esse motivo também, não especifiquei o lugar onde se desenrola a acção, pois esta história podia ter acontecido em qualquer paróquia deste país que tenha um grupo de jovens. António Manuel P. Silva |
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Ultimamente a Ana tem-me chamado a atenção. Não é uma rapariga rica, mas também não é pobre. Não se veste com roupas caras. Além disso é de outra turma e passa o tempo num grupo de pessoas mais afastado. Poucas vezes me cruzo com ela na escola. Normalmente uma rapariga assim passaria despercebida aos meus olhos, mas das poucas vezes que a via, algo me chamava a atenção: o sorriso. Comentei com alguns colegas que achava aquela rapariga engraçada. A reacção deles foi com comentários do género: “Agora estás virado para as betinhas”, “Essa miúda é uma amostra de gente”, etc… Não liguei muito ao que eles disseram. Estava decidido a meter conversa e ia fazê-lo. Certo dia encontrei-a sozinha, sentada num banco a estudar. Reparei que ela usava sempre uma pequena cruz de madeira ao pescoço. Era diferente das cruzes habituais, com umas formas arredondadas. Sentei-me ao pé dela e perguntei:
- Porque usas essa cruz?
- É bonita, gosto dela. Além disso simboliza a minha Fé e Alegria. – Respondeu de forma decidida. Outra rapariga teria mostrado sinais de timidez.
- Nunca percebi o significado da Cruz. Não compreendo como é que um objecto que causa sofrimento e morte, pode ser usado como um símbolo de alegria. – Disse-lhe.
- Nunca andaste na catequese? De certeza que te explicaram lá o significado da Cruz.
- Andei, mas nada daquilo fez sentido. Se calhar até me explicaram, mas a única lembrança que tenho é uma senhora austera a dizer: “O Jesus castiga!” Ainda fiz a comunhão, lembro-me que os meus pais fizeram uma grande festança, mas saí da catequese logo a seguir.
- Bem, eu podia explicar-te o significado da Cruz, mas para ti seriam apenas palavras, não irias compreender. Tenho uma ideia melhor… Que fazes no domingo de manhã?
- Domingo… Não sei. Possivelmente dormir.
- Bem, este domingo não. Às 11 horas vem à missa. É o meu grupo que vai animar.
- Estas a falar a sério!? Eu! Na missa!?
- Sim, porque haveria de estar a brincar? Vai ser muito engraçada, vais gostar. Vemo-nos domingo. Tenho aula agora.
Levantou-se e piscou-me o olho enquanto se afastou.
O sorriso continuava ali, sempre estampado no seu rosto. Mas agora era algo mais, aquela conversa foi diferente, ela falou comigo de forma decidida, sem corar como as outras raparigas faziam. Não sei porquê, mas naquele momento também sorri.
Domingo acordei relativamente cedo. Por algum motivo naquele dia não tinha sono. O primeiro pensamento que me ocorreu, foi o convite da Ana. Ir à missa! Sinceramente, a proposta era ridícula, eu nem sabia o que se faz na missa… 10 horas estavam assinaladas no relógio e uma força parecia empurrar-me para fora da cama. Eu sabia o que era. A curiosidade de assistir à tal missa… Resolvi seguir o impulso e vesti-me. Não sabia o que ia fazer, mas a curiosidade era forte demais. Ao sair a minha mãe perguntou-me onde ia.
- Combinei com uns amigos. – Respondi. Não fui capaz de dizer a verdade, por vergonha talvez. A mesma vergonha que sentiria se os meus amigos descobrissem…
Faltavam 2 ou 3 minutos para o início quando cheguei, mas a igreja já estava cheia. Deixei-me ficar na parte de trás, escondido atrás das pessoas, para que não fosse notado. Espreitei lá para a frente para ver onde estava a Ana. Estava entre o coro. Ainda afinavam os instrumentos. Já não entrava ali desde miúdo. Havia qualquer coisa de diferente, ao pé do altar estava uma tela com a frase projectada: “Bem-Vindo à Eucaristia”.
Começou a celebração e cantaram uma música em que o refrão dizia: “Como são belos os pés que anunciam a paz”. Era um coro diferente do habitual. Eram todos jovens, alguns conhecia de vista lá da escola. Tinham bateria e guitarra eléctrica, mais pareciam uma qualquer banda de música rock. À primeira vista nada daquilo tinha a haver com a Igreja, mas as pessoas pareciam gostar. O ritual foi seguindo. Não estava muito atento ao que diziam, mas estava curioso pela música que viria a seguir. A certa altura vejo a Ana a subir para ler. Fez uma leitura que falava que Jesus Cristo é o Senhor e se acreditássemos que este havia ressuscitado, também nós seríamos salvos. Ela tinha razão, para mim aquilo não passava de palavras. Aquilo que ela leu não fez sentido para mim… Pensei em sair dali, mas surgiu uma nova música que parecia anunciar algo importante. Desta vez foi o padre ler e todos se benzeram de forma complicada. Tentei imitar o que vi, mas o resultado não foi dos melhores. O padre falou que Jesus tinha estado 40 dias no deserto e tinha sido tentado pelo diabo. Depois de ler comentou a passagem, transpondo as tentações para os dias de hoje. Desta vez compreendi melhor, mas o que o padre dizia não fazia muito sentido. Como pode alguém ser melhor se se rebaixa perante os outros? Como podem acreditar que vão ressuscitar para uma outra vida? Foi então que reparei, não pensava na morte. Essa palavra parecia estar num futuro tão distante, que parecia inalcançável. Os rituais sucediam-se. Tentava-me concentrar nas músicas para afastar o meu pensamento da morte. Mas também a própria música falava da morte, de Cristo crucificado e da forma como Ele nos amava. Estranhamente eles cantavam com alegria. Tudo aquilo era muito confuso para mim. Naquele momento arrependi-me de ter ido ali, não esperei pelo final e saí discretamente para fora.
(...)

